VACINA CONTRA A COCAÍNA
O consumo de cocaína representa um importante problema de saúde pública em diversos países do mundo. Segundo o Escritório Nacional das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, 2010), estima-se que 0,3% a 0,4% da população adulta mundial faça uso da droga. Os efeitos de prazer ocasionados pela cocaína são devidos principalmente a inibição da recaptação neuronal de dopamina, o que aumenta a disponibilidade do neurotransmissor na fenda sináptica.
Os neurônios dopaminérgicos centrais originam-se, em sua maior parte, em áreas distintas do cérebro, e possuem projeções divergentes. O maior trato no cérebro é o sistema nigroestriatal, que contém cerca de 80% da dopamina cerebral. Esse trato parte da substância negra do mesencéfalo até o corpo estriado e está relacionado ao controle do movimento.
Medialmente à substância negra, existe uma área de corpos celulares dopaminérgicos no mesencéfalo, denominada área tegmental ventral (ATV). A ATV possui projeções amplas que inervam muitas áreas do prosencéfalo mais notavelmente o córtex cerebral, o núcleo accumbens e outras estruturas límbicas. Esses sistemas desempenham um papel importante e complexo na motivação, no pensamento orientado para metas, na regulaçãodo afeto e no reforço positivo (recompensa).
No núcleo accumbens os receptores dopaminérgicos do tipo 2 (D2) causam euforia, enquanto os receptores tipo 1 (D1) inibem tal efeito. Frente à presença constante de cocaína no cérebro, ocorre um aumento dos receptores D1 e redução dos receptores D2. Isso dificulta a ação euforizante da cocaína e faz com que o usuário se veja forçado a aumentar a dose para obter o mesmo efeito de antes.
Ainda não há um medicamento específico para o problema da dependência da cocaína. No entanto, alguns medicamentos são utilizados paradiminuir os sintomas de abstinência. Além disso, um grupo de pesquisadores dodepartamento de Química e Saúde Mental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com apoio da FAPEMIG, desenvolveu substância capaz de induzir o organismo a produzir anticorpos contra a cocaína, que, consequentemente, também age contra o crack.
Coordenado pelo professor Frederico Duarte Garcia, da área de Psiquiatria da UFMG, o estudo buscou tratar a dependência com a própria molécula da droga. Os anticorpos produzidos ligam-se à molécula de cocaína na corrente sanguínea e impedem a passagem pela barreira hematoencefálica, bloqueando sua entrada no cérebro. Dessa forma, sem a sensação de prazer desencadeada pela droga, o ciclo do vício pode ser quebrado.
Na primeira fase da pesquisa, foram realizadas experimentações in vitro. Em seguida, verificaram-se, em camundongos, a eficácia e adequação da vacina, obtendo-se grande êxito. Agora, após serem contemplados pelo Programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS), chamada apoiada pela FAPEMIG, os cientistas seguem à fase 2, na qual a equipe concentrará esforços na verificação da eficácia da vacina, e, em seguida, na busca de registro em órgãos reguladores federais.
Referências bibliográficas:
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA. Diretriz de abuso e dependência de cocaína. Disponível em: https://www.uniad.org.br/interatividade/noticias/item/24924-diretriz-abuso-e-depend%C3%AAncia-de-cocaina. Acesso em 04/05/2019.
- GOLAN, David E. Princípios de farmacologia: a base fisiopatológica da farmacoterapia. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2009.
- NEPOMUCENO, T. Vacina contra cocaína pode bloquear efeitos da dorga no cérebro. Minas faz Ciência, 2018. Disponível em: https://minasfazciencia.com.br/2018/12/25/vacina-contra-cocaina-pode-bloquear-efeitos-da-droga-no-cerebro/. Acesso em 04/05/2019.